Quem faz
Começou com um homem que não sabia o nome da cidade para onde ia
A história da família Basso, de uma aldeia do norte da Itália ao interior do Paraná, contada em quatro gerações e um tacho de cobre.
Itália, começo do século
Guerino
Guerino Basso nasceu numa aldeia de encosta no norte da Itália, onde a terra da família cabia em três terraços estreitos e já estava dividida entre irmãos demais. Era o mais novo de cinco. Pela conta que se fazia na época, sobrava para ele o trabalho e não a terra.
Aprendeu duas coisas com o pai que atravessariam o oceano junto com ele: podar parreira e cozinhar fruta em tacho de cobre até o ponto certo, que ninguém mede com relógio e todo mundo reconhece quando vê.
Sobrava para ele o trabalho e não a terra.
A travessia
Uma passagem e um endereço escrito à mão
Embarcou com uma mala, uma faca de poda e um papel com o nome de um conterrâneo que havia partido antes. O destino no papel era uma região do Paraná que ele não sabia pronunciar. A viagem levou semanas e a chegada foi num porto onde ninguém falava a língua dele.
Do porto ao interior foram mais dias, parte de trem, parte a pé. Quando finalmente parou, parou em Campo do Tenente, e o que encontrou foi inverno de verdade, terra vermelha e mato fechado.
Campo do Tenente
A primeira parreira
A primeira parreira que Guerino plantou não era para vender. Era porque uma casa sem parreira, para ele, não era casa. Uvas bordô, que pegam bem no frio e dão um sumo escuro que tinge a mão.
A geleia veio depois, e veio pelo motivo mais simples do mundo: sobrava uva no fim da safra e jogar fora não passava pela cabeça de quem tinha atravessado um oceano com uma mala. O tacho de cobre foi comprado de segunda mão e nunca mais saiu da família.
Uma casa sem parreira, para ele, não era casa.
As gerações seguintes
O que se aprende ficando por perto
Ninguém na família aprendeu a fazer geleia em curso. Aprendeu ficando do lado do tacho em fevereiro, mexendo quando mandavam mexer e levando bronca quando o fogo subia demais.
Com o tempo entraram outras coisas na despensa: o figo em calda, a conserva de pimenta da horta, o mel dos apiários de bracatinga, o pão de fermentação natural, as peças curadas no frio do inverno. Cada uma entrou porque alguém da casa quis aprender a fazer.
Hoje
Por que abrimos a bottega
Durante décadas isso tudo saiu da cozinha para a mesa da família, para os vizinhos e para quem aparecia. A Bottega Paiolo nasceu da vontade de deixar essa despensa chegar a mais gente sem virar outra coisa no caminho: mesma quantidade, mesmo tacho, mesmo tempo.
É por isso que a entrega é uma vez por semana e a lista muda. Não damos conta de mais do que a safra dá, e não queremos dar.
O tacho é o mesmo
O tacho de cobre que Guerino comprou de segunda mão continua na cozinha, e continua sendo o único usado para a geleia. Muda quem mexe.
Família Basso · Campo do Tenente, Paraná
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